sábado, 19 de dezembro de 2009

Futuros amantes, quiçá, se amarão.

Era um dia totalmente atípico. Andei pelas ruas da capital baiana e não precisei tapar os ouvidos ou blasfemar mentalmente contra a música ruim que em dias normais paira sobre a cidade. No primeiro apartamento, onde a música se ouvia de fora, tocava um jazz, não sei dizer exatamente quem, mas era do bom, algo da década de 60. Algumas esquinas mais tarde, passou um carro com um som altíssimo, e, pasmem: não era Asa de Águia, era Schubert. Sem falar na moleca de três anos que passou por mim cantarolando Garota de Ipanema com uma afinação que deixaria André Lelis envergonhado.
Mas nada conseguiria melhorar meu dia, o cigarro havia acabado e eu prometi não comprar outro, o pó de café especial venezuelano estava no fim e em Salvador não se acha desse, e além disso, ansiedade para saber a resposta do emprego fazia meu sangue pulsar com medo. E, te digo isso se você prometer não contar a ninguém: isso era o que eu dizia pros outros, porque no fundo eu já havia passado por isso e, graças a eu pensar sempre com enorme negligência da vida – principalmente da profissional -, nada disso seria capaz de me afetar. Mas, na atual condição, tudo isso me aparece como tomates jogados no palco onde eu encenei minha peça; e minha peça era o que me envergonhava, os tomates só serviam como porradas numa têmpora já entorpecida. Durante todo o espetáculo, encenei de joelhos, me sentindo como o crânio de Hamlet e respondendo a ele: “Não seja, quando ela pedir; seja, quando ela precisar”. Hamlet era minha consciência, e minha consciência dizia coisas que meus amigos repetiam. Eu sabia, sabia tudo, que não era daquele jeito, que eu não devia ter me entregado tanto, que faltou ponderar, faltou pôr os pés no chão. Sempre falta a mim botar os pés no chão.
Mas não quero pensar sobre isso, deixa eu dobrar essa esquina e observar o movimento da rua, preciso tirar minha cabeça disso. Entrei pela rua Amazonas e dei a observar os pedestres que passavam, e de fato veio algo que chamou minha atenção: uma moça de pele branca, bochechas salientes, cabelos castanhos, nem cacheados demais, nem lisos demais – ondulados na medida exata para adornar-lhe o rosto -, e olhos indescritíveis. Não se acha, nesse mundo, olhos como aqueles, à oriente, num perfil tão europeu e num corpo tão brasileiro, com braços tão lindos que imaginei ali um ninho, tão lindos que eu quase pude sentir o abraço deles. Olhei-a tanto que ela deve ter ficado com medo, atravessou a rua e entrou num fast-food. Fiquei meio sem jeito, eu devia ter disfarçado, ou qualquer coisa, pra tentar puxar um papo inocente, mas era aquela história dos tomates – a história, não os tomates – que me faziam perder a noção das coisas. Porra, é realmente mais fácil ler sobre do que passar por essas decepções amorosas de cabeça erguida. Que cabeça, que cabeça? Cabeça eu nunca tive, se tivesse, não estaria nessa situação se tivesse... Puta que pariu!, meti o pé na água. Porra, vai tomar no cu, cidade mal organizada, infra-estrutura do inferno! Por que essa desgraça tinha que ‘tá aqui? Agora eu quero ver o fedor que meu tênis vai ficar, merda. Vai ficar fedendo igual a carniça que eu guardo no mediastino depois que eu... Porra, e eu já volto a lembrar disso. Agora a porra da poça são os sonhos, meteram um pé bem grande e espalharam tudo. Viraram gotinhas no asfalto quente, evaporando, fazendo o concreto se contrair, abrindo buracos na estrada, abrindo buracos da estrada, a calefação das esperanças, contração do contreto, rigidez, austeridade, estrada, concreto, onde minhas pernas teimavam em seguir...
Peguei o celular, mandei uma mensagem pra gorda. “Tá tudo virando concreto, e tá contraíndo”. A resposta veio de imediato: “Aperta no vermelho, onde diz: ‘Foda-se’”. Filosofia da Mariana. E ela nunca pensava muito pra dizer essas coisas, acho incrível. Deu certo no exame da auto-escola dela, quem sabe dá certo pra minha vida. Olhei pro tênis e disse pra ele, olhando nos olhos:
- Foda-se.
Não tive o resultado necessário. Entrei no mercado, com tênis molhado, comprei um maço de Marlboro e me arrependi assim que saí do mercado, mas eu já tinha comprado, né? É. Subi as escadas, fiz um café com o resto de pó que sobrava e sentei na varanda pra ler. Não sei ler o quê, peguei o primeiro livro que vi e levei pra varanda, coloquei-o na cadeira ao lado da poltrona e puxei o primeiro cigarro, acendi e levei-o a boca. Fumando e imaginando o que passaria na cabeça das pessoas que transitavam na rua lá em baixo, sem perceber, quase queimei os lábios. Imaginei que o cigarro se parecia com o amor. A gente vai fumando o amor sem perceber, se dando completamente a ele, até que ele nos assusta queimando nossa boca. Ou nos mata com um câncer no peito.
Olhei a guimba do cigarro e refleti sobre a vida – ou a morte, como queira chamar. Pensei que cigarro era algo muito bom e que era errado as pessoas condenarem porque me tira, sei lá, dez anos de vida? E quem merece uma vida não vivida? Achei que isso era pensamento de fumante e que o cigarro já corroia meu cérebro. Achei também que o mesmo princípio se aplica ao amor, e achei que isso era pensamento de ser vivo e que o amor corroia meu cérebro.
Baixem as cortinas e passem alcool no piso. Podem comprar qualquer pó arábico que houver no mercado. Andem, mais álcool no piso, tirem os tomates. Enxaguem tudo com substâncias com quarenta por cento de teor alcoolico. E me tragam mais cigarros joguem o resto ainda aceso sobre esse palco e comemoremos, a vida merece outra peça, a vida merece outro palco.