quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

Tudo bom?

- Oi! E aí, como que você tá?
- Ei! Ah, eu tô normal, e você? Tá bem?
- Sei não, tem um tempo que eu não sei dizer se estou bem.
- Sério? O que aconteceu?
- Ah, não sei bem. Parece que tá faltando algo sempre, sabe?
- Ah, sei, sinto isso também.
- É... E o seu pai, como tá? Aquela sua amiga, Carolina, né? Sua mãe, seu avô, tempão que a gente não se fala.
- Meu avô morreu, foi horrível, mas já tem um tempo, eu já tô tranquila, apesar de sentir falta dele. Minha mãe tá bem, tá bebendo menos e ela e meu pai pararam de brigar finalmente. E meu pai ainda tá com aquela namorada, tá indo bem nos negócios dele e tá bem. E a sua mãe? Ainda tá como era antes? Às vezes eu lembro dela e rio sozinha, ela era foda. Sua irmã tá bem também?
- Nossa, eu lembro de um tempo que seu avô tava mal, ele chegou a ser hospitalizado, não é? Mas isso dos seus pais me deixa alegre. Quando eles brigaram você ficava muito mal, né? Nunca esqueço essas coisas. Minha mãe tá lá, na mesma alegria de sempre. E às vezes parece que eu ainda tenho dezoito anos e moro na casa dela porque ela não me deixa em paz, haha. Minha irmã... ah, você lembra que ela fez Oceanografia, né? Pois ela seguiu no curso e trabalha na Petrobrás, mas acho que tá com uns problemas de casamento, ando meio procupado.
- Você sempre teve uma boa memória mesmo. Mas problemas de casamento? É coisa séria?
- Não sei bem. A Laura tem a cabeça boa, deve saber lidar com isso... E você não me falou sobre a Caroline.
- Ah, meu, sou lerda, você sabe. É, eu nunca mais a vi. A gente era tão amiga, né? Agora a gente se fala bem raramente. Acho que mudei mesmo de ares humanos. E aquele seu amigo que você me falava sobre ele às vezes, o branco, haha, vocês ainda são amigos?
- Haha, o branco, velho! Cara, depois que eu me mudei pra cá ele veio também e a gente ficou bem próximo, mas no fim acabou se afastando de novo. Sinto saudades dele. De todos os meus antigos amigos, na verdade. Às vezes me parece que meus amigos tinham mais cor antes.
- Sabe que eu sinto isso às vezes? A Caroline me faz tanta falta cantando Jota Quest de madrugada na minha janela! Os amigos que eu tenho hoje são maravilhosos, mas parece mesmo que os antigos eram mais... mais vida, sabe? Ou talvez não tanto, mas é como se as coisas fossem mais divertidas, como se algo estivesse ficado esquecido num fundo de armário.
- Quem sabe um dia os escafandristas não o acham? Mas é exatamente o que eu acho. Às vezes eu acho que eu estou ficando velho, velho com trinta anos, solteiro, sem filhos nem netos. Esse sentimento de nostalgia dá essa impressão, não é? Às vezes eu tenho medo de minha casa se tornar um personagem dos meus romances, como uma casa de pessoas que deixaram uma chance para trás e viveram a vida sem toda a intensidade por causa dessa chance. Uma casa daquelas cheias de fotografias coloridas no tempos em que ainda era possível e outras descoloridas pela fumaça do tempo, algo meio sem esperança, sabe? Uma casa daquelas com pouca música, daquelas que vivem com as cortinas fechadas. Essas casas que não sabem que a bagunça que o vento causa é compensada pela luz que entra fazendo desenhos no chão da sala, aqueles desenhos que lembram poemas do Quintana, que lembram pontos de luz flutuantes dançando pela atmosfera... Às vezes até abro a cortina da casa, sabe? Mas faltam os pontos de luz, ou falta a dança. Também pode ser que falte música. Quer dizer, eu falo música, música mesmo, sabe? Porque música lá em casa – você deve imaginar – nunca falta. Mas parece que falta vida na música, ou a vida da música, ou uma música para a vida. Talvez esses vestígios de outro tempo sirvam para que sábios, um dia, decifrem o eco de antigas palavras e fragmentos de cartas, poemas. Às vezes parece mesmo que a vida seguia em um ritmo de inércia e que depois foi, enfim, vencida pelas Leis, e a fumaça do tempo poluiu um possível futuro sonhado. Eu falo demais, né?
- Fala, e eu acho isso fofo. Fico meio imaginando como essas coisas aparecem na sua cabeça.
- Haha, mas eu tenho medo de não deixar você falar, eu me passo pensando assim.
- Ah, relaxa, já disse que eu acho fofo.
- Haha, tá. E você tá namorando, tá casada, tem filhos?
- Tô meio enrolada com alguém, mas eu não quero falar sobre isso. E você?
- Andei me enrolando também, mas fica tudo sempre morno. Talvez falte música. Tô solteiro agora.
- Hum, sei...
- É...
- Que coisa!
- Que foi?
- Nada, só queria te encher mesmo. Me dá um cigarro?
- Haha, você nunca vai deixar de ser monga assim. Quer o isqueiro também?
- Não, eu tenho aqui. Você nunca vai deixar de me chamar assim.
- Tem algumas coisas que por mais que a gente queira, tente e tal, nunca mudam, né?
- E tem outras que mudam tanto...
- Você lembra daquele dia...
- Que dia?
- Ah, deixa, você não deve lembrar.
- Ah, vai, fala!
- Não, não, deixa pra lá, vai.
- Você sabe que eu não consigo, diz logo. Anda.
- Haha, mimada...
- Mimada é seu passado.
- São a mesma coisa.
- Não muda de assunto. Conta o que você ia contar? Por favor?
- Você lembra da promessa?
- Promessa? Mas que promessa?
- Por que você desviou os olhos dos meus? Você lembra qual é a promessa.
- Você acha que eu conseguiria esquecer?
- Eu realmente não sei, certas coisas mudam.
- E tem certas coisas que por mais que a gente queira, tente e tal, nunca mudam, né?
- Você havia dito que sim, que seria minha pra sempre. Será que essas chances ficam perdidas pra sempre? Será mesmo que essas coisas só existem na cabeça de jovens?
- Não sei. A gente era mesmo muito novo... A cabeça da gente muda tanto...
- Será que é melhor ser muito jovem ou muito velho? E o quão jovem se pode ser depois de ter-se tornado velho antes do tempo? Até onde, no passado, nossa mão ainda alcança pra que a gente possa puxar esse tecido colorido que a gente quer tanto usar? Não, não, antes: será mesmo que ficou no passado?
- Onde fica a linha que separa a juventude da senilidade? O passado do presente? Quer dizer, o quão presente está o passado nas nossas memórias?
- Onde fica a linha que separa o possível do impossível, estando o possível e o impossível no nosso peito?