Se me perguntassem sobre o que pensava, responderia que não pensava porque me faltavam pessoas. Não sei se é qualidade, defeito ou só mais uma característica que pertence a todos da minha espécie, mas meu pensamento só se cria se serpenteando, se esgueirando ou saltando sobre o caos. Careço de entrechoques de opinião, de conflitos, de euforia, entusiasmo, aqueles brados de trovões nas vozes das pessoas, para que minha opinião - enfim - entre em erupção de modo instantâneo e fervoroso. Acho mesmo que essa coisa toda de caos genésico é vulgar.
Não existia, portanto uma linha de pensamento criada nem sendo seguida. Mas existiam impressões, existiam respostas hormonais às paisagens vislumbradas. Via uns tantos corredores de prédios e eles pareciam querer se tocar. Não, eles desmoronavam uns sobre os outros. Bastava eu olhar pra cima e lá estavam eles, bram!, bram!, o mais alto caia sobre o mais baixo e depois ambos era pura poeira no chão. Se eu não olhava pra eles, entretanto, nada acontecia pois olhando exclusivamente para o chão eu não via mais poeira caindo, sinal de que os prédios cessavam de cair. Corri um tempo olhando estritamente para o chão e depois de algum tempo qualquer tipo de paz caiu sobre mim. Levantei um pouco a cabeça, girei o corpo em 180ºe fui elevando as vistas para ver o que se passava. A cidade parecia tranquila. Senti novamente o vendo na nuca e acendi outro cigarro. Estranhamente, minha mão tremia, tremia, xinguei, o cigarro não ia de encontro à chama, eles se estranhavam e se tratejavam como as cordas e o braço de um violão quebrando as notas da harmonia. Quando, enfim, pude acender o cigarro, respirei o ar puro e olhei novamente as contruções, só então percebi que o que o tremor do cigarro com a chama parecia ter tomado conta do chão que eu pisava e eu não podia mais ficar parado.
O tremor me derrubou e, ao cair sentado no chão, vi o sol lançando seus raios intensos sobre o asfalto que, de repente, começava a rachar e a se dividir. Pedaços, blocos de asfalto subiam envolvidos de tanta quentura emergiam alguns metros sobre o chão e chacoalhavam, vibravam, rangiam entre si como as guitarras sujas de Jack White. O vento, que parecia não estar ali até um segundo antes, agora levava as placas emergidas ao encontro, estrondo, elas conflitavam, lutavam para saber quem sobreviveria, rodopiavam e de repende me notaram. Eu me econtrava no único círculo de chão que ainda continuava intacto, voltei os mesmo sento e oitenta graus sobre meu próprio eixo e vi que a cidade que estava às minhas costas intacta estava e parti em direção a ela desesperado com as placas de asfalto me perseguindo, chocando-se entre si, os barulhos me atordoavam, feriam meus ouvidos, aceleravam meus batimentos, embaçavam a minha vista. Não via para onde exatamente eu corria, e vez em quando me batia com alguma placa de "Pare" ou "Mão Dulpa" ou mesmo "Proibido Estacionar". Imaginava, de modo vago, aquela rua num congestionamento enorme e, distraindo-me, deixei o resto de fumo cair, o desejo de não ter permitido tal desenlance me fez virar a cabeça para o movimento do cigarro descendo e - de repente - sendo puxado para cima pelo vento, assustado também eu enrolei os pés e fui ao chão.
Quando bati a bunda no chão, senti pequenas gotículas molhando meus cabelos. Chovia ardentemente. O frio arranhava os ossos. E eu, sentado, pensava que com um cigarro estaria melhor. Não quis acender outro porque provavelmente a chuva apaga-lo-ia. Levantei-me irritado com a possibilidade de não poder fumar e por não entender aquilo tudo que estava se passando. Acendi, enfim, um cigarro e fumei até o fim, andando sobre a chuva sem direção exata. Ainda via resquícios do caos gerado, só havia restado da cidade as construções mais frágeis em termos de estrutura física e financeira, mas preponderantes quando sua função era servir de variadas formas. Andando passei por um prédio que correspondia a uma instituição de educação federal nomeada CEFET, projetada por Oscar Niemeyer e inaugurada, segundo placa em destaque, em 1956; algo também como umas bibliotecas e um espaço entitulado Artesanato dos Guerreiros. Em certa direção, quando enfim os prédios já não me ocupavam a vista, via coqueiros. Andei em diração a eles, já processando tudo que havia passado.
Chegando, enfim, a uma conclusão e perto dos coqueiros, o inesperado toma forma: um corpo de mulher se desenha no espaço. Paulatinamente, delicada e precisamente surgia uma mulher de aspecto agradabilíssimo não sendo essa, entretanto, sua maior qualidade. Todo a experiência tátil e perceptiva atravessada por mim há momentos atrás se encontrava nos olhos dela, dançavam no seu cristalino. Estava, porém, domada por um formato que lembrava bonecas de porcelana, cílios de Emília.
Está portanto provado, pela descrição do nascimento de uma mulher a partir das costelas retiradas de um homem que, como disse Morin, toda forma de organização, de beleza e arte se originam a partir do caos. Nesse momento, abri os olhos e as buzinas gritavam na janela do me quarto.