terça-feira, 30 de agosto de 2011

Roberto bem que avisou sobre as flores...

Lembro claramente que da imensa janela do seu quarto viam-se alguns dos mais famosos moteis de Salvador. Não que eu tivesse segundas intenções com você; apesar de te desejar já naquela época, não tinha a mínima pretensão de usufruir desses instintos (torpes?). Pensava mesmo que se um dia nos casássemos, eu poderia esperar até esse dia para te ter definitivamente. Éramos só crianças.
Conversávamos nesse dia com amigos e ouvíamos músicas que você gostava. Lembro claramente das músicas e das suas expressões ao ouvi-las. Em determinado momento, percebendo meu desconcerto, você até me pediu para que sentasse ao computador e escolhesse algo que me agradasse. Sentei-me e iniciei a busca. Você veio sentar-se delicadamente ao meu colo como quem quer agradar e observava o que eu fazia.
Preparávamo-nos para almoçar. Eu, você e nossos dois amigos distraíamo-nos para esquecer o ruído do estômago com fome, pois o dia já chegava à décima quinta hora e ainda estávamos só com o café da manhã. Lembro-me de olhar-me no grande espelho que compunha a parede no corredor da sua casa. Eu estava com uma calça larga e enorme, o que aumentava minha miudez. Meu cabelo estava enorme e desorganizado, eu devia aparentar 12 anos, apesar dos 15. Via-me feio.
Você estava como tivesse se arrumado toda a manhã para me receber. Lembro do cheiro doce e suave do seu perfume e do brilho nos seus cabelos. Lembro que toda vez que você sorria uma rosa aparecia pendurada na sua orelha como na primeira vez que te vi. Nos meus devaneios de criança pensava em como um ser de beleza tão divina poderia encostar os dedos áureos em mim, ser de tanta desarrumação.
Ríamos muito naquele dia. Nossos amigos sentados à sua cama se divertiam rindo das nossas besteiras. A gente era bem parecido nesse sentido. Recordo inclusive de alguém dizer que nós daríamos certo porque tínhamos humor semelhante. Até sua antiga coleção de ursos de pelúcia gargalhava do alto da prateleira. Assim lembro-me do quarto: entrávamos no ambiente retangular pela porta que ficava no canto de um dos lados do retângulo, à nossa esquerda estava as prateleiras dos bichos e abaixo delas um mini-sofá com almofadas femininas, pouco à frente estava a cama, com a cabeceira encostada na parede da direita, ao lado da cama, apoiado na mesma parede, estava o computador e na frente dos dois, o armário. A porta dava pra grande janela.
Meu fascínio por você tinha qualquer coisa de flor. Sua beleza, já naquela época, era estonteante. E você só tinha 14 anos. Eu olhava pra você como se olham as Cataratas do Iguaçú, ou a Vênus de Milo. Por outro lado, você não era diferente de nenhuma préadolescente fútil. Suas roupas, discursos, preferências, você era uma menina comum com uma beleza helênica e isso, estranhamente, me encantava exponencialmente. Não porque fosse contraditório ou qualquer coisa, o que me encantava era a forma de você articular as duas coisas, desorganizando qualquer forma de sistema onde pudesse encaixar sua beleza. Sua beleza escorria pelos dedos da teoria da estética, buscava a harmonia e harmonizava como Bach.
Almoçamos e, quase fim de tarde, tinha de ir pra casa. Agradeci a sua mãe pela refeição e desejei um, Boa tarde pra senhora, que foi rebatido com um, A Senhora está no céu! Desci o elevador como quem levou uma bofetada, mas depois achei graça. Já no pátio você me convida a sentar consigo nos degraus frios de mármore branco na frente do prédio. Sentamos. Meus joelhos virados para os seus, os seus virados para frente. Muitas roseiras no jardim, o ambiente se construía nos verdes das folhas, o branco do mármore, o marrom da terra e poucas rosas vermelhas e amarelas. Achei o lugar romântico. Você disse que não queria mais. Escorre uma lágrima curta, fina e fria pela minha face. Passo os dedos, tento disfarçar. Levantei a coluna, disse que te entendia e que aceitava. Pedi um último beijo, você cedeu. Foi um beijo desajeitado como todos os outros.
Passei dias pensando nisso. Chorei de vergonha e decepção comigo mesmo. Foi meu primeiro choro de amor.